segunda-feira, 21 de maio de 2012

O novo (re)canto de Gal




O novo álbum da cantora Gal Costa, “Recanto”, é mais uma grande parceria com o cantor e compositor Caetano Veloso. Repleto de críticas sociais e batidas eletrônicas, o disco mostra uma sonoridade experimental acompanhando o pessimismo que permeia as temáticas abordadas.
A irreverência e inovação estética presente no disco, retoma o movimento cultural brasileiro surgido na década de 60, no qual a intérprete integrava: O tropicalismo. Assim como no movimento, o disco traz a mistura de instrumentos e ritmos, melodias e arranjos experimentais, letras de cunho político e rompimento no cenário musical vivido da época.
Na faixa de abertura, “Recanto Escuro”, o parceiro de tropicália e compositor da canção, Caetano veloso, parece fazer referência ao exílio vivido por ele no período da ditadura militar. Gal, por sua vez, canta com a voz melancólica e arrastada ilustrando a ideia de aprisionamento descrita na letra: “Eu venho de um recanto escuro / O sol, luz perpendicular / Do outro lado azul do muro / Não vou saltar”.
No álbum, é notável a relação de continuidade que as faixas estabelecem entre si. As últimas canções vão deixando de lado a melancolia e o minimalismo presente nas primeiras “Recanto Escuro”, “Cara do mundo” e “Tudo Dói”. O destaque vai para a música “Autotune Autoerótco” que, com melodia e arranjo mais comerciais, faz uma crítica ao uso indiscriminado do recurso de edição de voz Autotune. “Não, o autotune não basta pra fazer o canto andar / Pelos caminhos que levam à grande beleza / Americana global, minha voz na panela lá”.
Caetano, produtor do álbum e compositor de todas as faixas, faz uma participação na penúltima música do disco, “Miami Maculelê”, que mistura batida eletrônica com ritmo de funk, fazendo referência ao estilo musical Miami Bass. A letra faz uso da metalinguagem ao discutir a própria sonoridade do disco. Já na faixa “Neguinho”, de cunho político, uma das marcas registradas do compositor, critica a classe média consumista. “Se o nego acha que é difícil, fácil, tocar bem esse país / Só pensa em se dar bem - neguinho também se acha / Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro GPS e acha que é feliz”.
Com exceção da faixa “Mansidão”, a sonoridade do álbum pouco tem a ver com a MPB cantada por Gal em seus trabalhos anteriores. Buscando sair da mesmice, a interpretação poderosa da cantora, que a consagrou na década de 70 e 80, deu vez a um cantar passivo e cansado. 

                                                                                                                   Isabela Almeida 

 

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