O novo álbum da cantora
Gal Costa, “Recanto”, é mais uma grande parceria com o cantor e
compositor Caetano Veloso. Repleto de críticas sociais e batidas
eletrônicas, o disco mostra uma sonoridade experimental acompanhando
o pessimismo que permeia as temáticas abordadas.
A irreverência e
inovação estética presente no disco, retoma o movimento cultural
brasileiro surgido na década de 60, no qual a intérprete integrava:
O tropicalismo. Assim como no movimento, o disco traz a mistura de
instrumentos e ritmos, melodias e arranjos experimentais, letras de
cunho político e rompimento no cenário musical vivido da época.
Na faixa de abertura,
“Recanto Escuro”, o parceiro de tropicália e compositor da
canção, Caetano veloso, parece fazer referência ao exílio vivido
por ele no período da ditadura militar. Gal, por sua vez, canta com
a voz melancólica e arrastada ilustrando a ideia de aprisionamento
descrita na letra: “Eu venho de um recanto escuro / O sol, luz
perpendicular / Do outro lado azul do muro / Não vou saltar”.
No álbum, é notável a
relação de continuidade que as faixas estabelecem entre si. As
últimas canções vão deixando de lado a melancolia e o minimalismo
presente nas primeiras “Recanto Escuro”, “Cara do mundo” e
“Tudo Dói”. O destaque vai para a música “Autotune
Autoerótco” que, com melodia e arranjo mais comerciais, faz uma
crítica ao uso indiscriminado do recurso de edição de voz
Autotune. “Não, o autotune não basta pra fazer o canto andar /
Pelos caminhos que levam à grande beleza / Americana global, minha
voz na panela lá”.
Caetano, produtor do
álbum e compositor de todas as faixas, faz uma participação na
penúltima música do disco, “Miami Maculelê”, que mistura
batida eletrônica com ritmo de funk, fazendo referência ao estilo
musical Miami Bass. A letra faz uso da metalinguagem ao
discutir a própria sonoridade do disco. Já na faixa “Neguinho”,
de cunho político, uma das marcas registradas do compositor, critica
a classe média consumista. “Se o nego acha que é difícil, fácil,
tocar bem esse país / Só pensa em se dar bem - neguinho também se
acha / Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro GPS e acha que é
feliz”.
Com exceção da faixa
“Mansidão”, a sonoridade do álbum pouco tem a ver com a MPB
cantada por Gal em seus trabalhos anteriores. Buscando sair da
mesmice, a interpretação poderosa da cantora, que a consagrou na
década de 70 e 80, deu vez a um cantar passivo e cansado.
Isabela Almeida

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