quinta-feira, 24 de maio de 2012

Anáguas


           Plateia e atores se misturam no palco do espetáculo que trouxe de volta, depois de anos sem atuar, três grandes atrizes paraibanas, para representar com primor o texto rebuscado da autora Lourdes Ramalho. Em “Anáguas”, o texto de Lourdes mais uma vez impressiona pela sensibilidade e intensidade dos diálogos. 
           A companhia Oxente, sob a direção de José Maciel, conta a história do conflito entre três mulheres (mãe e filhas) que vivem na mesma casa e compartilham suas angústias. A mãe, Maria das Graças, interpretada por Margarida Santos, vive de luto desde a morte do seu marido e tenta, sem sucesso, moldar o comportamento de uma das filhas, Maria Cândida, interpretada por Palmira Palhano, que tem um estilo de vida libertino, buscando de forma inconsequente entregar-se as suas paixões e é constantemente alvo de críticas. Já a filha mais velha, Maria Exaurina, interpretada por Mônica Macedo, é conservadora e busca, assim como as outras, defender veementemente suas convicções.
             A ambientação atípica do espetáculo cria um clima intimista que chama atenção logo na entrada da plateia no teatro. Em um cenário iluminado por velas, as atrizes, posicionadas em cima de escadas formando um triangulo no palco, conduzem um poderoso canto a capella. O público é orientado a dirigir-se aos bancos que estão espalhados no meio do triangulo, junto às atrizes, agora já personagens. É fácil notar que o espetáculo já começou, e sem o abrir das cortinas. A plateia, então, se transporta para aquela casa antiga do interior, em que os moradores tomam banho “de cuia” e usam anáguas como roupas de baixo. Na encenação, o espectador se sente como o vizinho das Marias, a quem é contada as agustias, as intrigas, os rancores, os ciúmes, as crenças, as histórias de família.
           O público se surpreende mais uma vez quando é convidado a contracenar com as atrizes no desfecho da peça, o que garante que o formato, diferente do palco italiano (tradicional), não foi sem propósito. No enredo, as diferenças entre as personagens se estreitam até que a condenação de umas às outras vão dando espaço à redenção e ao apoio familiar.

Isabela Almeida

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