quarta-feira, 11 de julho de 2012

Os Pássaros

            Uma das obras primas do diretor Alfred Hitchcock, Os Pássaros, realizado em 1963, é um filme norte-americano do gênero de suspense. O filme foi baseado no livro de Daphné Du Maurier de mesmo nome. Alfred Hitchcock após encontrar nos jornais que tinha havido verdadeiros ataques de pássaros, achou que a história tinha potencial para o cinema e pediu para o roteirista Evan Hunter adaptar o conto. Todo o filme surpreende pelos efeitos especiais inovadores e o enredo absolutamente surpreendente, com a ausência de um “The End” tradicional onde se explica os acontecimentos. 
              O enredo se passa na pacata cidade de Bodega Bay, na Califórnia, que vive momentos de terror quando milhares de pássaros começam a atacar as pessoas da região. A trama se desenvolve quando a personagem Melanie Daniels, interpretada por Tippi Hedren, se dirige a cidade de Bodega Bay levando um casal de passarinhos em uma gaiola para presentear a irmã do solteirão Mitch Brenner, interpretado por Rod Taylor, que havia conhecido em uma loja de animais, um dia antes, na cidade de São Francisco. No mesmo dia da sua chegada a Bodega Bay, Melanie é atacada, sem motivo, por um pássaro e Mitch a convida para passar o final de semana. A partir daí, toda a ação se passa em dois dias onde o cerne da história são os sucessivos ataques de pássaros cada vez mais numerosos. 
          O filme começa, ao contrário do seu gênero de suspense, com um toque de comédia entre os personagens principais ao se conhecerem na loja de pássaros. Nessa cena ocorre uma antecipação no momento em que o personagem Mitch coloca um passarinho em sua gaiola dizendo: “Eu a coloco em sua gaiola dourada, Melanie Daniels”. A gaiola dourada declara que se trata de uma personagem rica e mimada, no entanto, mais tarde, durante um ataque de gaivotas, a personagem Melanie Daniels se refugia em uma cabine telefônica que simboliza uma gaiola, fazendo referência a cena inicial do filme. Assiste-se a inversão do conflito entre os homens e os pássaros, só que dessa vez os pássaros estão fora da gaiola e o homem dentro dela. Na mesma cena, e em diversas outras onde havia montagem, o processo do Chroma Key foi aperfeiçoado de modo que a sobreposição feita com as pinturas das paisagens, não provocasse a típica mancha azulada, o que foi um grande salto para a época. 
           Após o ataque a Melanie no barco, os pássaros voltam a atacar mais uma vez no aniversário de Cathy, irmã de Mitch Brenner. Horas mais tarde, outro ataque é feito dessa vez as centenas de pássaros descem pela chaminé e atacam Mitch, Melanie, Cathy e a mãe de Mitch. No dia seguinte, o terror se faz mais presente na horripilante cena em que o amigo da família Fawcett é encontrado pela mãe de Mitch, morto, sem os olhos e com a casa repleta de pássaros mortos. O interessante nessa cena é o uso da câmara subjetiva que funciona como se fosse o olhar do ator. A câmara é tratada como "participante da ação", ou seja, a pessoa que está sendo filmada olha diretamente para a lente e a câmara representa o ponto de vista de uma outra personagem participando dessa mesma cena. 
           Na clássica cena em que os pássaros atacam as crianças depois da escola, percebe-se o grande número de pássaros, mas nem todos eram de verdade: haviam pássaros feitos de cartolina e pássaros embalsamados. Após o ataque das crianças, Melanie segue para um típico restaurante de Bodega Bay, o diálogo sobre o ataque dos pássaros é a tônica central da cena. Surgem várias perguntas sem repostas e é aí que se percebe o clima de tensão que a cidade vive: porque os pássaros atacam? E é nisso que reside o terror quase abstrato do filme: a possibilidade de sermos surpreendidos, em nossa superioridade e segurança, por uma ameaça vinda de quem jamais esperaríamos. De inofensivos, os pássaros se tornam, repentinamente, mortíferos.
          Outro recurso narrativo e estilístico que se destaca no filme é o “Griffith´s last minute rescue” (em português: “o resgate de ultimo minuto à lá Griffith”), que seria, por exemplo, uma seqüência de perseguição, recortando e intercalando as cenas de perseguidores, de um lado, e perseguidos, de outro, em planos cada vez mais curtos. Isso ocorre quando a personagem Melanie Daniels observa de uma janela o fogo se espalhando durante um ataque dos pássaros e a sua imagem quase estática acompanhando com os olhos o caminho do fogo é intercalada com a imagem do próprio fogo.       Depois disso, nota-se uma tomada feita do alto através de uma angulação Plongée, de cima para baixo, que simboliza o ponto de vista das gaivotas diante do caos da cidade. 
           Outro aspecto importante no filme é a ausência de trilha sonora. A história é narrada apenas com sons de pássaros, deixando o ambiente mais aterrorizante e claustrofóbico para o publico. O final ficou em aberto, provocando mistério e múltiplas interpretações. Em suma, o que faz a obra de Hitchcock assustadora e atual é o seu grande poder expressivo e de aprendizagem - enquanto técnica -, a poeticidade de suas imagens e de seus personagens, inseridos dentro de uma enorme construção audiovisual. 
           “Os Pássaros” pode não ter superado o sucesso de Psicose, mas, sem dúvida, pode ser considerada uma das obras mais emblemáticas da carreira de Hitchcock, onde o publico não pode nunca prever qual será a cena seguinte. Alfred Hitchcock, em suas seis décadas de carreira e quase o mesmo número de filmes, sabia criar o suspense como ninguém, mesmo que esse suspense venha de criaturas que nunca imaginaríamos: os pássaros. Após assisti-lo, você nunca mais olhará um bando de pássaros como antes.

 Isabela Almeida e Jacyara Araújo

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Evento reúne cultura pop e entretenimento no Forrock

        No último fim de semana, João Pessoa sediou uma convenção que reuniu fãs de quadrinhos, animes, games e cultura pop em geral: O Super-con. Confira a matéria sobre o primeiro dia do evento!



quinta-feira, 24 de maio de 2012

Anáguas


           Plateia e atores se misturam no palco do espetáculo que trouxe de volta, depois de anos sem atuar, três grandes atrizes paraibanas, para representar com primor o texto rebuscado da autora Lourdes Ramalho. Em “Anáguas”, o texto de Lourdes mais uma vez impressiona pela sensibilidade e intensidade dos diálogos. 
           A companhia Oxente, sob a direção de José Maciel, conta a história do conflito entre três mulheres (mãe e filhas) que vivem na mesma casa e compartilham suas angústias. A mãe, Maria das Graças, interpretada por Margarida Santos, vive de luto desde a morte do seu marido e tenta, sem sucesso, moldar o comportamento de uma das filhas, Maria Cândida, interpretada por Palmira Palhano, que tem um estilo de vida libertino, buscando de forma inconsequente entregar-se as suas paixões e é constantemente alvo de críticas. Já a filha mais velha, Maria Exaurina, interpretada por Mônica Macedo, é conservadora e busca, assim como as outras, defender veementemente suas convicções.
             A ambientação atípica do espetáculo cria um clima intimista que chama atenção logo na entrada da plateia no teatro. Em um cenário iluminado por velas, as atrizes, posicionadas em cima de escadas formando um triangulo no palco, conduzem um poderoso canto a capella. O público é orientado a dirigir-se aos bancos que estão espalhados no meio do triangulo, junto às atrizes, agora já personagens. É fácil notar que o espetáculo já começou, e sem o abrir das cortinas. A plateia, então, se transporta para aquela casa antiga do interior, em que os moradores tomam banho “de cuia” e usam anáguas como roupas de baixo. Na encenação, o espectador se sente como o vizinho das Marias, a quem é contada as agustias, as intrigas, os rancores, os ciúmes, as crenças, as histórias de família.
           O público se surpreende mais uma vez quando é convidado a contracenar com as atrizes no desfecho da peça, o que garante que o formato, diferente do palco italiano (tradicional), não foi sem propósito. No enredo, as diferenças entre as personagens se estreitam até que a condenação de umas às outras vão dando espaço à redenção e ao apoio familiar.

Isabela Almeida

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O stop motion do estúdio Aardman volta às telonas!


        faz um tempo que o gênero Animação tem ocupado grande destaque nos cinemas de todo o mundo. Seja pela sua impressionante qualidade técnica, como emMadagascareA Era do Gelo”, ou pela sensibilidade e complexidade de seus enredos, a exemplo deUpAltas AventuraseToy Story 3”. Dirigido por Peter Lord, co-fundador do estúdio Aardman, dos ganhadores do OscarFuga das Galinhas” (2000) e "Wallace & GromitA Batalha dos Vegetais" (2005),Piratas Pirados” (2012), apesar de ser mais infantil que as produções atuais do gênero, também promete agradar a pais e filhos
           Quebrando com os esteriótipos do pirata e repleto de humor britânico, o roteiro do filme conta a história do Capitão Pirata (voz de Hugh Grant) que, sem muita habilidade em saquear navios e ser o terror dos sete mares, sonha em conquistar o prêmio de pirata do ano, concorrendo com os experts na categoria Black Bellamy (Jeremy Piven) e Cutlass Liz (Salma Hayek). Junto com sua tripulação, que permanece fiel apesar dos sucessivos fracassos, o Capitão vai até a cidade de Londres, onde tem sua maior aventura, enfrentando a Rainha Vitória (Imelda Staunton). 
             A presença de personagens reais, como o cientista Charles Darwin (David Tennant), é uma das grandes sacadas do filme. Charles e seu macaco (referência à Teoria do Evolucionismo e a lenda de que Darwin tinha macacos como empregados), iluminam a trama. Polly, a ave de estimação do Capitão (um raro Dodô), também é um dos personagens fundamentais no enredo, razão das divertidas confusões em que o Capitão e sua trupe se metem
             O roteiro, baseado emOs Piratas, em Uma Aventura com os Cientistas (2004), um dos livros da sérieOs Piratas”, de Gideon Defoe, que mostra um lado bem atrapalhado de piratas do bem, tem sua graça, mas não surpreende. Depois dos sucessos, “Fuga das GalinhaseWallace & Gromitficou difícil superar as expectativas dos fãs. Apesar disso, tem algo que salta aos olhos dos espectadores, e não é os diálogos dos personagens e muito menos a moral da história (não se troca amigos por dinheiro e fama). 
           A produção, utilizando a técnica de Stop Motion (criada em 1906), que fotografa quadro a quadro, também usada nas outras realizações do estúdio Aardman, é o que mais impressiona no longa. Em meio a essa atual geração Pixar e ao uso recorrente de métodos cada vez mais avançados da imagem digital, o estilo artesanal e o uso das técnicas primitivas, porém de qualidade absoluta, agrega valor e enriquece a produção
             É claro que o processo de realização do filme está atrelado ao auxílio de uma alta tecnologia, a perfeição das imagens não nega. Entretanto, é a complexidade de uma animação feita com maquete de gesso, plástico e madeira e bonecos demassinha”, que encanta. Pensar em cada detalhe, nos vários tipos de sobrancelhas, olhos, mãos e nas 250 bocas criadas apenas para o protagonista, faz o filme ser mais belo aos olhos do espectador.
Isabela Almeida

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O novo (re)canto de Gal




O novo álbum da cantora Gal Costa, “Recanto”, é mais uma grande parceria com o cantor e compositor Caetano Veloso. Repleto de críticas sociais e batidas eletrônicas, o disco mostra uma sonoridade experimental acompanhando o pessimismo que permeia as temáticas abordadas.
A irreverência e inovação estética presente no disco, retoma o movimento cultural brasileiro surgido na década de 60, no qual a intérprete integrava: O tropicalismo. Assim como no movimento, o disco traz a mistura de instrumentos e ritmos, melodias e arranjos experimentais, letras de cunho político e rompimento no cenário musical vivido da época.
Na faixa de abertura, “Recanto Escuro”, o parceiro de tropicália e compositor da canção, Caetano veloso, parece fazer referência ao exílio vivido por ele no período da ditadura militar. Gal, por sua vez, canta com a voz melancólica e arrastada ilustrando a ideia de aprisionamento descrita na letra: “Eu venho de um recanto escuro / O sol, luz perpendicular / Do outro lado azul do muro / Não vou saltar”.
No álbum, é notável a relação de continuidade que as faixas estabelecem entre si. As últimas canções vão deixando de lado a melancolia e o minimalismo presente nas primeiras “Recanto Escuro”, “Cara do mundo” e “Tudo Dói”. O destaque vai para a música “Autotune Autoerótco” que, com melodia e arranjo mais comerciais, faz uma crítica ao uso indiscriminado do recurso de edição de voz Autotune. “Não, o autotune não basta pra fazer o canto andar / Pelos caminhos que levam à grande beleza / Americana global, minha voz na panela lá”.
Caetano, produtor do álbum e compositor de todas as faixas, faz uma participação na penúltima música do disco, “Miami Maculelê”, que mistura batida eletrônica com ritmo de funk, fazendo referência ao estilo musical Miami Bass. A letra faz uso da metalinguagem ao discutir a própria sonoridade do disco. Já na faixa “Neguinho”, de cunho político, uma das marcas registradas do compositor, critica a classe média consumista. “Se o nego acha que é difícil, fácil, tocar bem esse país / Só pensa em se dar bem - neguinho também se acha / Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro GPS e acha que é feliz”.
Com exceção da faixa “Mansidão”, a sonoridade do álbum pouco tem a ver com a MPB cantada por Gal em seus trabalhos anteriores. Buscando sair da mesmice, a interpretação poderosa da cantora, que a consagrou na década de 70 e 80, deu vez a um cantar passivo e cansado. 

                                                                                                                   Isabela Almeida